Qual a diferença entre mau e mal?

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“A língua portuguesa é a mais difícil do mundo”, você certamente já deve ter ouvido essa afirmação em algum momento. Exageros a parte, não é mistério que o português tem regras que são demais confusas. Quando não incompreensíveis à primeira vista. Um exemplo é sobre qual a diferença entre mau e mal.

No nosso cotidiano essa diferença parece ser apenas da ordem das convenções. Afinal se usa “mal” quando queremos um sentido oposto ao aludido por “bem”. Enquanto “mau” usamos de forma oposta a “bom”. Surge apenas como outra daquelas formalidades do português.

Mas superficialmente não parece ir além das regras. Mau e mal se confunde quanto à classe gramatical em seu uso. Na verdade, parecem aludir ao mesmo sentido de ordem negativa. Parece que não há nem mesmo uma diferença clara como existe entre “bad” e “evil” na língua inglesa.

Porém, se olharmos além da superfície, descobrimos uma diferença considerável entre as duas palavras. Vamos dar uma olhada nas ciências da língua. E assim perceber de fato qual a diferença entre mau e mal.

Azulejo português com escrita em latim
Azulejo português com escrita em latim. (Imagem: Wikimedia Commons)

Uma questão etimológica

Primeiramente é da ordem do problema que consultemos à etimologia. Afinal, para saber qual a diferença entre mau e mal, nada mais natural do que a ciência da origem das palavras. Vamos observar à luz da etimologia a raiz de cada uma dessas palavras e saber se já são diferentes desde já.

Juntos, mas separados

Algo em comum já surge quando nos debruçamos sobre os termos “mau” e “mal”. Ambas as palavras têm suas raízes em expressões latinas. Isso não chega a ser um fato surpreendente, afinal do latim deriva a língua portuguesa em si. Isso fica ainda mais evidente nas palavras apontadas quando se lembra a influência religiosa.

Mas, apesar desse fator comum, mau e mal tem origem em palavras diferentes. Mau deriva de malus. Já mal vem de male. É curioso quando se percebe como os dois termos vem de palavras aparentemente distintas entre si. Mas fica ainda mais intrigante quando se percebe uma diferença semântica entre malus e male.

De malus para mau

Supõe-se que o termo latino malus que originou a palavra portuguesa mau vem de outra palavra do grego antigo. Esse termo grego teria como sentido remeter à escuridão. Também se especula que a palavra malus também tenha um parentesco indo-europeu da língua avéstica, com sentido de “traiçoeiro”.

Conforme for, a expressão malus aparece no latim com a conotação adjetiva que nos é familiar. Ou seja, remete aquilo que diabólico, pernicioso, perverso e vil. Mas outras definições também orbitam nessa conotação negativa, como insano e vulgar. A influência desse sentido surgiria depois para a palavra mau no português.

De male para mal

A princípio male surge como um derivado de malus nas variações da língua latina. Sendo assim também alude a afecção negativa de sua palavra de origem. Mas se diferencia sutilmente por se realizar como um advérbio. Serve assim muito mais para denominar uma circunstância do que uma característica.

Não só indica assim um atributo diferenciado. Exibe então uma maior variedade de uso. Além de remeter aos sentidos de caráter e personalidade negativa, também alude a estados e condições. Male pode indicar também que alguém está doente. Mal assim surge como uma variação portuguesa dessa palavra.

Cartaz gramatical sobre qual a diferença entre mau e mal
Cartaz gramatical sobre qual a diferença entre mau e mal (Imagem: Superior Tribunal de Justiça – Flickr)

Dentro da língua portuguesa

Escavar a etimologia dos termos ajuda muito a entender seu uso atual na nossa língua. Mas ainda há mais para saber sobre qual a diferença entre mau e mal. Afinal, as sutilezas da formação da língua portuguesa influenciam no uso atual dessas palavras. Agora com a ajuda da morfologia vamos ver como isso se aplica.

Medindo os atributos

É interessante perceber que a evolução da língua portuguesa conferiu atribuições para além das raízes latinas. O uso de mau e mal é um exemplo. Mau continuou limitado a sua significação como adjetivo.

Porém, mal vai muito além de um mero adverbio. Essa palavra também pode surgir como um substantivo (“O mal está entre nós”) ou como uma conjunção (“Mal cheguei em casa). Essa variedade de usos também a desloca o sentido de negatividade, como demonstrado pela conjunção.  

O mal e o bem, o bom e o mau

Certamente, o vem a cabeça na definição de mal-mau é seu antagonismo como bem-bom. Já é encucado nas nossas cabeças que essas palavras remetem sempre a um antagonismo umas com as outras. Inclusive serve como um facilitador para resumir a diferença entre mau e mal.

Respectivamente, bem e bom tem os mesmos desdobramentos e limitações morfológicas que mal e mau. Sem dúvidas exprime o antagonismo na maioria das vezes. Porém, podem escapar dele. Um exemplo é no uso como substantivos, como em “avaliei a disponibilidade dos bens” que não encontra uma relação com mal.

Derivados

Enfim, quanto ao uso de mau e mal, convém mencionar a capacidade desses termos de gerarem outras palavras. Afinal, como palavras simples, monossilábicas, podem assim originar palavras mais complexas. Tanto mau quanto mal podem ser usados como sufixos. Alguns exemplos são “mau-agouro” ou “mal-humorado”.

Assim também vale mencionar algumas palavras que compartilham parentesco. Termos como maldade, maligno e maldição já vem da capacidade de aglomeração do próprio latim. As palavras malignus e malitas que originaram essas expressões são derivados diretos de male. São assim exemplos da flexibilidade linguística.

Conclusão

Observar qual a diferença entre mau e mal é confrontar uma das dúvidas mais frequentes da língua portuguesa. São duas palavras que se confundem entre si devido a sua simplicidade. Mas além das semelhanças, podem apresentar diferenças quanto às suas atribuições e sentidos.

Uma análise sobre as origens e o uso lógico dessas palavras é eficiente para esclarecer melhor sobre essa diferença. Considerações sobre a evolução da língua portuguesa servem para evidenciar essa diferença melhor do que comparar com bem e bom.

Fontes: Gramática ReflexivaWordsense
Imagem: Wikimedia Commons

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